Betinha Thomaselli

O Blog da Elizabeth Lebarbechon

Nossos dias eram assim

Esquerda Festiva.  Os   Dias Eram Assim…

 

Copacabana, 15 de Fevereiro de 1968, “Close  Up  da Esquerda Festiva “!

Assim começa a reportagem na revista “Fatos e Fotos “:

Closep  up da Esquerda Festiva

Texto de Antônio  Texeira  Junior, Fotos de  Zulema Riba

“Em geral, ela usa mini saia e eles tem barbas, só usam calça Lee e camisa de marinheiro, embora detestem militares e os americanos (“esses imperialistas”). São insatisfeitos, rebeldes, do contra, auto suficientes e autores de frases que, não raro, pertencem a Sartre ou  a Jean-Luc, Godard. Assim é o jovem da esquerda festiva ou Geração   Paissandu, uma fração de juventude que só pensa em cinema mas não tem cultura cinematográfica ,que fala em nome de subdesenvolvimento mas não gosta de trabalhar, que teme pelos destinos da  Amazônia mas não quer sair das areias de Ipanema. As teses dessa juventude foram colhidas por  FeF  nos bares do Rio “.

 

Para encontrar um adepto da esquerda festiva, basta procurar nos bares da Zona Sul do Rio, seguir um carro esporte dirigido por um cabeludo de ar intelectual ou ir à praia no horário em que o resto da população está trabalhando. Ao contrário do clube do  bolinha, os festivos gostam da presença feminina, desde que ela também seja do contra e ao aceite com sujeitos mais geniais do mundo. Em casa eles decoram livros para um show de erudição noturna na roda de chope mais próxima de Ipanema ou se atualizam com as novidades da literatura e da música.  Para  eles, os Beatles são “pra Frente “,um elogio raro para quem não gosta de quase nada. Apenas um deles acha que o Brasil tem um líder civil (Lacerda) capaz  de  sensibilizar as massas.

Muitos Festivos consideram os pais burgueses decadentes, mas toleram a mesada que recebem todas as semanas para gastos vitais como shop e uma ida ao Cinema Paissandu.

È preciso uma  boa alimentação para suportar as pressões do dia-  dia num mundo cheio de preconceitos e ideias  arcaicas . Alguns admitem o estudo mas preferem as reuniões a faculdade, onde discutem a política do café, a guerra no Vietnã e picham o ultimo filme de Antonioni (“um vulgar cineasta da moda “). A excentricidade é o caminho mais curto para se constituir, facilmente, um poder jovem. Eles não querem ser quadrados  mas  sua vida é um eterno círculo vicioso.

Todas as sextas   feiras,  as dez e meia da noite, eles deixam o paraíso de Ipanema e fazem uma peregrinação até o Flamengo.Sexta-feira é dia de Paissandu. Ali, todos se encontram para um bate-papo  antes e depois do  filme a ser exibido. Qualquer fita americana é abominável, a menos que os Cahiers  du  Cinéma tenham elogiado. Buñnel, Rosi, Rosselini e Godard são os únicos deuses da geração Paissandu. Eles reconhecem em Gláuber  Rocha (na foto) um gênio a ser imitado, mas, no fundo acreditam que o futuro do  cinema está nas mãos tremulas dos cineastas amadores, seus amigos. Eles dão a impressão de que já viram todos os clássicos dos cinematecas e leram todos os tratados de estética.

 

Pesquisas  feitas  sobre o tema “O que há de novo na Esquerda Festiva

“Esmeraldo e eu empreendemos uma incansável e obsessiva caçada à memória fotográfica da Manchete. Mais precisamente, procurando levantar a quantidade de profissionais que trabalharam nas revistas da Bloch. Outro dia me veio à lembrança a paraguaia Zulema Rida, casada atualmente com o importante designer Karlheinz Bergmüller. De um casamento anterior, Zulema teve um  filha Julia, que se casou em 1980 com o cônsul da Alemanha no Rio, Michael Geier, amigo dos jornalistas de esquerda cariocas – Ziraldo cantou boleros na festa do seu casamento.
Mas, voltando à Zulema, de breve passagem pela fotografia na Bloch. Em 1966, ela foi escalada para fotografar uma reportagem da Fatos&Fotos sobre a esquerda festiva carioca. Ora, as grandes cagadas na Bloch sempre aconteciam com a pobrezinha da F&F. . .

Um local obrigatório para se fotografar a esquerda festiva carioca era o Cine Paissandu e o seu entorno boêmio. Zulema fez um belo ensaio em preto e branco em um bar de calçada ao lado do Paissandu. O editor abriu a reportagem com uma foto em página dupla em que aparecia com destaque como intelectual da festiva – a legenda infeliz enfatizava – Mr. Jack Wyant, da American Embassy.

Quando Fatos&Fotos foi às bancas, veio logo o telefonema fatídico da embaixada e a chapa esquentou em Frei Caneca, onde ficavam as redações da Bloch. A coisa ficou preta para os envolvidos na reportagem, a responsabilidade maior era do repórter e não do fotógrafo, mas sobrou também para a paraguaia – talvez por isso mesmo ela não tenha ficado muito tempo na Manchete. Quanto a Jack Wyant, fiquei sabendo que ele morreu há poucas semanas, aos 87 anos, no dia de São Sebastião do Rio de Janeiro.”

Roberto Muggiati

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8 Comentários

  1. Querida prima Betinha,
    como fazíamos parte da “esquerda festiva”,
    certamente fomos encontrados ( eu, de costas preocupado com a perseguição política, eheheh ) nos bares da Zona Sul do Rio. Muito legal, bjs.

    1. Estávamos em um momento de felicidade no Castelinho,a política era muito superficial nas nossas cabecinhas. Ainda bem que não fomos presos,poderíamos ter conhecido os corruptos de hoje.kkkkk

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