Betinha Thomaselli

O Blog da Elizabeth Lebarbechon

Despedida

Era meu último dia em Bergamo, Carol ficava pelos cantos choramingando para Alice não perceber a tristeza que pairava no ar. Sempre explicando a minha neta Alice de três anos, que precisava voltar para minha casa, que era longe e também tinha deixado à priminha Olívia, mas havia um olhar triste e pensativo, aqueles olhinhos azuis queriam entender a situação. O que Alice resolveu simplesmente foi confiscar minha mala de mão e assim inconsciente dava sinais de controle da situação, “sem a mala a vovó não iria embora”.
Lembro-me da trajetória a caminho do aeroporto de Malpensa, duas horas angustiantes, eu chorava por trás dos óculos, cantando musiquinhas do ipad, para Alice, assim abafava os soluços Carol no banco da frente.
Coitado do meu genro Cristiano, dirigindo e sem saber o que fazer, chegando ao aeroporto, Alice feliz com a malinha de mão, pensava ela me crê, que todos iriam para o Brasil a mala e o presente para a priminha Olívia “A Bia”. Na hora da despedida foi muito triste, Alice já sem a mala e também sem o presente em suas mãos, ela percebeu a situação, foi tudo muito rápido, um choro sentido, sem o presente e a mala e com os bracinhos abertos implorava aos prantos para embarcar, não deu para segurar, a cena ainda martela na minha memória.
Despedida é ruptura, sempre dolorosa e inevitável, em qualquer circunstância das nossas vidas.
Lembro-me das casas que tive que vender, dos objetos que lá deixei, dos cachorros que faziam parte da minha família que foram embora das nossas vidas, das lojas que tive, e mais triste de todas as perdas foi dos meus pais, lindos e felizes em nossas vidas, nossa casa de Coqueiros.
O dia que sai de lá não voltei para ver o que tinha restado, só um tempo atrás fui lá registrar com a minha Nikon. Triste, em minha mente tudo tão embaralhado o passado e o presente, a Saudade representava agora abandono.
Tenho uma dor e ao mesmo tempo uma fuga, fujo e não gosto de ver pessoas entes queridos sofrendo, vi na minha família, meus pais, a doença levou deles as suas identidades, amor próprio e seus semblantes que eram alegres tinham o gosto amargo da vida!
Assisti tudo isto desde meus cinco anos de idade, meu pai sofreu um acidente pulando de um barco para outro, fez 45 operações, hemodiálise, cansado no final eu grávida do Guilherme, ele não quis mais viver, negou qualquer medicamento e seu ultimo pedido foi o doce “Papo de Anjo”, levei escondida e ele não conseguiu engolir, mas senti no seu olhar um fiapo de alegria.
Minha mãe viu suas forças se esvaindo e seu coração fraquinho e lá se foi, cheia de santinhos e em cada santinho um pedido para seus netinhos ficarem bem, ou sempre para tudo ficar bem.
Quando de madrugada fui chamada, ela sentada mal conseguia respirar e lá foi ela, o ar que ela buscava, e meu olhar perplexo de tristeza, vi tudo se esvaindo toda sua vontade de viver, alegria, otimismo, só ficou o seu olhar vazio rumo ao desconhecido. 

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